Bêbado. Foi assim que Enrico chegou em casa às 4h da manhã de sábado. E como todo bêbado “sóbrio”, a única coisa que raciocina bem, é fazer o menor barulho possível, ou tentar, já que em 99% dos casos, o molho de chaves sempre cai no chão, e o planejamento vai por água abaixo, pois culpando a maldita lei da gravidade (que também quer levar o bêbado ao chão), xinga o inofensivo molho de chaves de todos os palavrões possíveis. E o pior, em voz alta.
Com o Enrico não foi diferente. Apenas incluiu um item a mais no planejamento furado: deu um soco na porta para aliviar a raiva. Digamos que a meta de entrar em casa em silêncio foi batida em menos 20%. Também se tivesse batido em 100% de nada adiantaria, pois Raquel já o esperava no escuro da sala, sentada no sofá segurando apenas uma vela acesa. A vizinhança inteira ouviu o grito de susto de Enrico. Depois de 1 minuto olhando para a figura sentada ao sofá, o bêbado reconheceu ser uma pessoa de carne e osso, mas mesmo assim não reconheceu quem.
-Sogra? – tentou Enrico.
É, tentou. Mas foi a pior tentativa.
-Além de você chegar bêbado, fedendo a guarda chuva molhado, as 5h da manhã (chegou realmente as 4h, mas mulher sempre aumenta pra causar mais impacto a bronca), você ainda me confunde com minha mãe?? Já que estou sem sono, o SENHOR trate de sentar ai e TENTAR me explicar o que aconteceu com o “Amorzinho...só vou até a padaria comprar um pãozinho e já volto. Você quer um sorvete né”? Sendo que não vejo nenhum pão e de sorvete só vejo esse palito grudado no seu cabelo! – e com um puxão, arrancou o palito com tanta força que quase arrancou o couro cabeludo do rapaz.
-Minha Uvinha...
-Pode cortar esse “mimimi”! Sem Uvinha, ou Kellzinha, ou o cacete que for! Explica!
Ainda assustado com a imagem de sua esposa segurando a vela na mão e ainda aos berros, Enrico tremia.
-Então. Eu fui até a padaria, mas encontrei uns amigos. Ai eu comprei os pães e fomos para um bar ali perto. Começamos a tomar uma cervejinha aqui, outra ali, mas faltava o tira gosto. Foi ai que o pão entrou na história. – e foi ai que Raquel foi ficando vermelha. – Pedimos uma porção de calabresa frita. E sabe como é a padaria do Sr. Homero, cobra até os cubos de gelo de uma bebida. Então para não cobrar os pães que acompanham a porção, usei o que tinha comprado. – de vermelha, Raquel começou a ficar roxa. – Então papo vai, papo vem, e acabaram-se as cervejas, mas incrivelmente meu relógio ainda marcava 22h30. Achei legal tem me divertido tanto e ter passado só 15 minutos. Mas também achei estranho. Até que o pessoal começou a ir embora e eu dizia: ‘é cedo galera! 22h30 ainda.’ Mas tinha a sensação de ter passado umas 3 horas. E o pessoal ria de mim. Foi quando o garçom disse: ‘você gosta tanto de beber que até finge que o tempo parou pra continuar. Hehe.’ Foi ai que meu raciocínio rápido entrou em ação (na verdade Enrico demorou uns 3 minutos pra entender a piada do garçom). Olhei para o relógio na parede e vi que já eram 2h da manhã. Fui correndo procurar algum lugar para correndo, pois a padaria já estava fechada, mas não encontrei nenhum lugar. Então, como a padaria abre as 3h30, eu fiquei lá em frente esperando abrir. Assim que abriu eu comprei dois sorvetes, pois eu queria um também. No caminho de volta, estava saboreando o meu, quando um mendigo me assaltou. Puxou a sacolinha que tinha colocado o seu sorvete. Como eu estava com as mão ocupadas, precisava de algum lugar para deixar o meu sorvete enquanto tentava tirar a sacola da mão do mendigo. O único lugar limpo ali era minha cabeça. Então comecei a lutar. Foi ai que num berro, o mendigo conseguiu atrair mais uns 7 ou 8 da mesma raça. Saíam de tudo quanto é lado: lata de lixo, debaixo de carros, boca de lobo. Fiquei tão assustado que larguei a sacolinha lá e corri feito um louco de medo. Quando percebi que eles desistiram de mim, sentei na calçada para recuperar o fôlego. Baixei a cabeça e comecei a respirar. Foi quando um cachorro tão bonzinho começou a lamber minha cabeça. Ficou ali durante uns 2 minutos e eu estava gostando, pois ele estava fazendo uma massagem boa. Então quando ele parou eu já estava melhor. Levantei e vim pra casa as 4h. E foi isso amor. Cheguei tarde, mas aconteceram muitas coisas.
Enrico parou de falar e ficou olhando Raquel esperando para ver qual seria as primeiras palavras.
-Só isso? – perguntou sua esposa.
-Só isso.
-Tudo bem. Boa noite.
-B...boa noite – gaguejou Enrico. – Você não está mais brava?
-Não. To cansada pra brigar com você.
Enrico sorriu triunfante como quem conseguisse enganar até a morte. Quando foi levantar para ir dormir, ainda com sorriso no rosto, Raquel disse:
-Se quiser comer alguma coisa, tem pão ali na mesa e sorvete na geladeira. Homero passou aqui em casa e trouxe pra mim explicando que talvez você não iria conseguir voltar pra casa tão cedo, já que ele te viu no bar dançando o “Créu” em cima da mesa do bar só de cuecas.
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